Associação entre sintomas depressivos e viver próximo de espaços públicos de lazer abertos
-
Autor: Felipe Francisco de Castro Passos (Currículo Lattes)
Resumo
Introdução: A depressão é um importante problema de saúde pública, com maior ocorrência entre mulheres e em contextos de vulnerabilidade social. Além de fatores individuais, o ambiente urbano pode influenciar a saúde mental. Espaços Públicos de Lazer Abertos (EPLA) podem favorecer restauração psicológica, convivência e bem-estar, mas ainda são escassos os estudos que avaliam simultaneamente sua presença, qualidade e uso em mulheres brasileiras. Objetivo: Investigar a associação entre viver próximo e utilizar EPLA e a presença de sintomas depressivos em mulheres adultas residentes na área urbana de Rio Grande, RS. Métodos: Estudo transversal com 660 mulheres participantes da quarta onda da Coorte de Nascimentos de Rio Grande de 2019. O desfecho foi a presença de sintomas depressivos, definida por pontuação maior ou igual a 10 na Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS). As exposições incluíram uso autorreferido de EPLA, frequência de uso, presença de ao menos um EPLA no entorno da residência, quantidade de EPLA em buffer de 800 m e qualidade desses espaços, aferida por auditoria com instrumentos PARA e POST. Inicialmente, foram realizadas análises descritivas e bivariadas. Em seguida, estimaram-se razões de prevalência por regressão de Poisson com variância robusta, ajustadas para idade, cor da pele, escolaridade, situação conjugal e renda familiar. Também foi testada interação entre qualidade e uso dos espaços, além de análise estratificada por renda. Resultados: A prevalência de sintomas depressivos foi de 42,2%. O uso autorreferido de EPLA foi a variável mais fortemente associada ao desfecho: mulheres que não utilizavam esses espaços apresentaram maior prevalência de sintomas depressivos na análise ajustada (RP = 1,17; IC95%: 1,08-1,27). Em contraste, a presença de EPLA no entorno da residência, sua quantidade e a frequência de uso não mostraram associação estatisticamente significativa quando analisadas isoladamente. Na análise de interação, mulheres com acesso a EPLA de alta qualidade, mas que não os utilizavam, apresentaram maior prevalência de sintomas depressivos em comparação ao grupo que dispunha desses espaços e os utilizava (RP = 1,29; IC95%: 1,03-1,63). A associação entre presença de EPLA próximos à residência e sintomas depressivos não foi modificada pela renda familiar. Conclusão: O uso de EPLA esteve associado a menor prevalência de sintomas depressivos em mulheres adultas, sugerindo que a simples presença de espaços próximos à residência não é suficiente para proteção em saúde mental. Os achados reforçam a importância de políticas urbanas e de lazer que não apenas ampliem a oferta de espaços de qualidade, mas também favoreçam seu uso efetivo pela população.