Dissertação - Thaiz Aparecida Pereira

O uso da interseccionalidade no campo da saúde no Brasil: uma revisão sistemática.

 

Resumo

Objetivo: Identificar publicações cientificas no período de 1989 a 2024, referentes a interseccionalidade e seus marcadores sociais da diferença relacionada ao campo da saúde no Brasil, descrevendo os métodos de pesquisa que vêm sendo trabalhados e apresentando as principais temáticas de estudos da saúde que acionam a perspectiva da interseccionalidade. Delineamento: Síntese sistemática da literatura com busca estruturada, análise crítica e transparência, baseado na análise de artigos originais (qualitativos - quantitativos - mistos) e ensaios. Metodologia: Estratégias de busca foram empregadas utilizando os termos: 'enquadramento interseccional' OR interseccionalidade OR intersectionality, combinados com saúde OR 'saúde pública' OR 'public health'. Esses descritores foram aplicados nas seguintes bases de dados científicas: Embase, LILACS, PubMed, Scopus e Web of Science. A partir das buscas, um banco de dados foi gerado na plataforma digital RAYYAN. A seleção dos artigos foi realizada individualmente por duas revisoras, com base nos critérios de inclusão e exclusão previamente definidos. Inicialmente, cada revisora selecionou artigos de interesse por título e resumo. As inconsistências foram debatidas entre elas. Por último, foram lidos os artigos na íntegra e aqueles artigos inconsistentes quando permaneceram, foram discutidos entre os quatro colaboradores. Resultados: Foram incluídos 69 estudos na saúde. Vinte e três utilizaram métodos qualitativos (como etnografia, entrevistas, grupos focais), 30 adotaram abordagens quantitativas, três combinaram métodos e 13 consistiram em ensaios teórico-metodológicos. Geograficamente, 30 estudos têm abrangência nacional; regionalmente, encontram-se principalmente nas regiões Sudeste (24), Nordeste (17) e Sul (12); não houve estudos na região Norte. Os temas mais recorrentes englobam acesso, políticas e gestão em saúde; HIV/AIDS; saúde materna e infantil; saúde mental; violência; insegurança alimentar; justiça ambiental; impactos da COVID 19; saúde LGBTQIA+; saúde masculina; comportamentos de risco a DCNTs. Estudaram-se frequentemente os marcadores sociais: gênero (65), raça (63), classe (50), idade (19), território (20), escolaridade (24). A interseccionalidade foi identificada como lente analítica central, capaz de revelar a inter-relação simbiótica e multiplicativa de marcadores sociais reforçando a perversidade de opressões como racismo e sexismo, e demonstrando seu potencial como ferramenta transformadora voltada à equidade e à justiça social. A análise evidencia que a intersecção ampliou as desigualdades e que, conforme aumenta a exposição, a saúde fica mais afetada e com desfechos mais expressivos. Conclusão: É abordado múltiplos temas e diversos marcadores interseccionais, contudo, há lacunas em regiões como Norte e Centro-Oeste, além de menor frequência de estudos sobre obesidade, deficiência, estado civil e ocupação, assim como escassos estudos sobre a população indígena. É essencial expandir a produção acadêmica nessas áreas para promover políticas públicas sensíveis às necessidades de grupos mais vulneráveis.

 

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